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TEXTOS

 

 

 

 

Abaixo disponibilizamos alguns textos baseados em estudos científicos recentes
 que embasam os argumentos do nosso site.

 

 

Texto 1: Estudo comprova relação entre sono e memória

Texto 2: Maioria das decisões cotidianas são tomadas pelo subconsciente

Texto 3: Experiências mostram que dormir ajuda a memória.

Texto 4: Uma máquina ativa, com propósito, que sai à noite para brincar

Texto 5: Como o sono afeta o intelecto e a memória

 

 

 

Estudo comprova relação entre sono e memória

Mantenha esta descoberta em mente: um estudo recente, realizado pela Universidade de Stanford (USA) mostrou que dormir profundamente depois de aprender uma coisa nova ajuda a manter a informação na sua memória. No primeiro estudo deste tipo feito com seres humanos, pesquisadores treinaram grupos de voluntários em uma complicada tarefa de computador, enquanto mediam sua atividade cerebral. Os participantes foram observados enquanto faziam o teste, enquanto dormiam naquela noite e, no dia seguinte, de volta à frente do computador.

   Os resultados são surpreendentes. Quanto testados no segundo dia, os “dorminhocos” tiveram reações muito mais rápidas do que no dia anterior. E, mais importante, foi demonstrado que enquanto os participantes do teste estavam dormindo, as partes do cérebro que haviam sido ativadas pelo teste pareciam estar revendo as informações durante o sono REM.

   “É realmente intrigante”, diz Clete Kushida, pesquisadora do sono na Universidade de Stanford. “Há muito tempo que pensamos que o sono REM e o processo da memória estavam conectados, mas este é o primeiro estudo com seres humanos a mostrar isso”.


Fonte: www.healthmag.com

               Dezembro de 2000

 

 

Ciência
Maioria das decisões cotidianas são tomadas pelo subconsciente
The New York Times
Sandra Blakeslee

Jogar compulsivamente; assistir eventos esportivos; dar trotes no telefone; investir assiduamente no mercado de ações. Estas atividades aparentemente não têm muita coisa em comum. Entretanto, os neurocientistas descobriram um fio que as conecta.

Estes comportamentos são possíveis graças a circuitos cerebrais desenvolvidos para auxiliar os animais a identificar recompensas relevantes para sua sobrevivência, como o sexo e o alimento. Pesquisadores descobriram que esses mesmos circuitos são empregados pelo cérebro humano para identificar recompensas sociais tão diversas entre si como lucros com investimentos e um gol aos 44 minutos do segundo tempo.

E para a surpresa de muitos, os cientistas descobriram que os sistemas cerebrais responsáveis pela detecção e avaliação destas recompensas geralmente operam fora da esfera da consciência. Quando investigam o mundo e buscam algo recompensador, os humanos agem mais como zumbis do que como seres pensantes.

As descobertas, que contam com apoio cada vez maior entre neurocientistas, contestam a idéia de que as pessoas sempre fazem escolhas conscientes acerca daquilo que querem e de como desejam alcançar suas metas. Na verdade, grande parte daquilo que se passa no cérebro tem lugar fora da esfera da consciência.

A idéia já estava presente em Freud, afira o Doutor Gregory Berns, um psiquiatra da Escola de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta. Os psicólogos estudaram o processamento inconsciente da informação relativos a efeitos subliminares, memória e aprendizado, e começaram a mapear quais partes do cérebro estariam envolvidas neste processamento. Mas só agora eles notaram como de que maneira estes diferentes circuitos interagem.

"Suspeito de que a maior parte das decisões são tomadas de modo subconsciente, com diversas gradações de consciência", disse Berns. "Por exemplo: sei vagamente como cheguei hoje ao trabalho. Mas a consciência parece estar reservada para coisas mais importantes".

O Doutor P. Read Montague, um neurocientista da Faculdade de Medicina Baylor, afirma que a idéia de que as pessoas podem chegar ao trabalho com uma espécie de "piloto-automático" levanta duas questões: como o cérebro sabe a quais coisas deve dar atenção? E de que maneira a evolução criou um cérebro capaz de fazer tais distinções?

A resposta ensaiada a partir de testes com animais e seres humanos é que o cérebro desenvolveu para adequar-se, desde a infância, ao que encontra no mundo exterior.

Como explica Montague, boa parte do mundo é previsível: os prédios geralmente permanecem no mesmo lugar, a força da gravidade faz com que os objetos caiam, a luz em um ângulo oblíquo cria sombras compridas, e daí por diante. À medida que a criança cresce, o cérebro constrói modelos internos para tudo aquilo que encontra, e gradualmente vai aprendendo a identificar objetos e prever como eles se movem no espaço e no tempo.

À medida que novas informações chegam do mundo exterior, o cérebro automaticamente as compara com aquelas que ele já possui. Se elas coincidem ­ como ocorre quando as pessoas passam diariamente por um mesmo trajeto ­ acontecimentos, objetos e a passagem do tempo podem não chegar à esfera da consciência.

Mas se há uma surpresa ­ um carro que passa o sinal vermelho ­ o descompasso entre o que era esperado e o que ocorre naquele instante lança o cérebro em um novo estado. Um circuito cerebral encarregado da tomada de decisões é ativado, novamente fora da esfera da consciência. Com o auxílio de experiências passadas, toma-se uma decisão: pisar no freio, virar a direção ou seguir adiante. Apenas um ou dois segundos depois, quando as mãos e os pés já iniciaram a decisão eleita, surge a sensação de se ter tomado uma decisão.

Montague estima que 90% das ações cotidianas das pessoas são executadas por esta espécie de sistema automático e inconsciente que possibilitou a sobrevivência dos seres vivos.

Os animais utilizam estes circuitos para saber o que devem esperar, o que devem ignorar e o que vale a pena aprender. Os seres humanos os utilizam para as mesmas finalidades que, em função da cultura e de um cérebro maior, incluem ainda ouvir música, comer chocolate, avaliar a beleza, jogar, investir em ações e consumir drogas ­ tópicos que foram estudados no ano passado com máquinas que filam o cérebro e medem diretamente a atividade dos circuitos cerebrais humanos.

Os dois circuitos que foram estudados mais detalhadamente estão relacionados ao modo como animais e seres humanos identificam recompensas. Em ambos está presente um elemento químico chamado dopamina. O primeiro circuito, localizado na região média do cérebro, auxilia animais e humanos a identificar instantaneamente a presença ou ausência de recompensas.

O circuito foi descrito detalhadamente há vários anos por Wolfram Schultz, um neurocientista da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Ele averiguou a produção de dopamina no cérebro de um macaco e fez testes com diversos tipos de recompensa ­ geralmente doses de suco de maçã que o animal gostava de beber.

Schultz verificou que quando o macaco recebia mais suco do que esperava, a dopamina invadia vigorosamente os neurônios. Quando o macaco ingeria a quantidade esperada de suco, com base em doses anteriores, a dopamina não aparecia. E quando o macaco esperava receber um pouco de suco e não recebia nada, a dopamina caía, como uma espécie de sinal da ausência de recompensa.

Cientistas acreditam que este sistema de dopamina está constantemente fazendo previsões sobre o que deve esperar em termos de recompensa. O aprendizado ocorre somente quando algo inesperado ocorre e as taxas de dopamina caem ou sobem. Quando nada de extraordinário ocorre ­ como a série regular de doses iguais de suco de maçã ­ o sistema da dopamina permanece inalterado.

Nos animais, diz Montague, estes sinais de dopamina do mesencéfalo são enviados diretamente para regiões do cérebro que iniciam os movimentos e o comportamento. Essas regiões do cérebro definem como conseguir mais suco de maçã ou ficar ali no mesmo lugar sem fazer nada. Nos humano, porém, o sinal da dopamina também é enviado a uma região mais elevada do cérebro, chamada córtex frontal, para um processamento mais elaborado.

Jonathan Cohen, um neurocientista de Princeton, estuda uma parte do córtex frontal chamado cingulata anterior, localizada logo atrás da testa. Esta parte do cérebro encarrega-se de várias funções, afirma Cohen ­ entre elas a detecção de erros e contradições no fluxo de informações que é processado automaticamente.

Experimentos com imagens cerebrais começam agora a revelar que quando uma pessoa recebe uma recompensa inesperada ­ o equivalente a uma grande dose de um delicioso suco de maçã ­ mais dopamina chega à cingulata anterior. E quando uma pessoa aguarda uma recompensa e a recebe, a cingulata anterior permanece inalterada.

Quando as pessoas aguardam uma recompensa e não a recebem, o cérebro necessita de uma forma para registrar o fato de que falta algo, de modo que possa reajustar as expectativas para eventos futuros, afirma Cohen. Tal como nos macacos, os neurônios de dopamina se projetam para áreas que planejam e controlam movimentos, ele diz. Oscilações de dopamina fazem com que as pessoas se levantem de suas camas e façam coisas sem que haja uma determinação da consciência desperta.

Tradução: André Medina Carone

 

Do Jornal El Pais – 14-02-2002

Experiências mostram que dormir ajuda a memória

Malen Ruiz de Elvira

Madri, Espanha -- O cérebro parece armazenar temporariamente no hipocampo a informação relevante nos processos de aprendizado, memória, comportamento e conhecimento, para então transferi-la durante algumas fases do sono para o córtex cerebral, reorganizando de forma útil e consolidando as lembranças no que se conhece como memória de longo prazo.

Experimentos recentes, que se baseiam por exemplo no registro da atividade individual de um grande número de neurônios, estão permitindo esclarecer o processo, de que também fazem parte os sonhos, e que parece ter pouco a ver com a interpretação freudiana.

Algumas experiências foram feitas com pássaros. Quando um pássaro dorme, também canta, explicou Daniel Margoliash, da Universidade de Chicago, na última reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) em Boston. O que o pássaro faz é reproduzir durante o sono a atividade neurológica (só de alguns neurônios) envolvida no canto novo que aprendeu durante o dia. A reprodução do canto não é exata. Faltam notas, sobram ou mudam, assim como os sonhos humanos se parecem com a realidade mas não são realistas. Suspeita-se que essa mesma prática durante o sono ocorra entre os músicos, que sabem melhor a música recém-aprendida depois de dormir.

A formação das lembranças tem muitas etapas, afirmou por sua vez Matthew Wilson, que dirige um laboratório de ponta nesse campo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts: "Elas se formam no hipocampo e se transferem para o córtex cerebral". Como isso acontece ainda é um mistério. Os cientistas acreditam que a reprodução das recordações recentes durante o sono pode ser a maneira de transferi-los para outras áreas do cérebro e se baseiam no resultado de experimentos em laboratório como os de Wilson, com ratos e labirintos.

Os ratos são equipados com um pequeno dispositivo que registra constantemente a atividade de cem neurônios ou mais. A conclusão dos estudos é que um determinado neurônio só dispara em um trajeto e sentido do labirinto (ao fim do qual está a comida que o rato procura). Depois de vários percursos, se observa que o neurônio se antecipa, disparando antes que comece.

Quando esse mesmo rato dorme imediatamente depois do trabalho, se observa quase a mesma seqüência de agrupamento de disparos em certos neurônios do hipocampo que quando o rato está percorrendo o trajeto, o que parece indicar que está consolidando a lembrança.

Wilson acredita que a sincronia da atividade observada no hipocampo e o córtex durante algumas fases do sono é a forma como os neurônios podem construir novas conexões (plasticidade cerebral) e assim consolidar as recordações formadas inicialmente. Essa sincronia ocorre na fase REM (movimento rápido dos olhos) do sono, que é quando sonhamos mais.

Numa experiência em que se registraram apenas dez neurônios cuja atividade era característica de uma tarefa concreta -o percurso em um labirinto circular até alcançar a comida e voltar- comprovou que em mais da metade dos episódios de sono REM analisados a atividade neurológica reproduzia na mesma velocidade o percurso do rato no labirinto, de forma que os pesquisadores podiam saber onde o rato se encontrava no sonho em cada momento, e se estava em movimento ou parado só pelo ritmo da atividade neurológica, traduzido em som. Quando se muda a tarefa do rato também mudam as características da atividade neurológica. Um detalhe importante é que a reprodução da tarefa em sonhos não é exata; costumam faltar pedaços do trajeto.

Os estudos com seres humanos são muito diferentes, por motivos óbvios. Robert Stickgold, da Universidade Harvard, realizou muitos e tirou conclusões interessantes. Em um estudo recente, voluntários olhavam para uma tela na qual se projetavam imagens rapidamente. A lembrança do que haviam visto melhorava muito depois de terem dormido na noite seguinte ao teste, e continuava melhorando durante vários dias, até que parava ou diminuir. A quantidade de sono REM influi de maneira útil nessa consolidação do aprendizado, explica Stickgold. Isso fica claro quando se trata de tarefas repetitivas, como digitar uma determinada seqüência de letras durante 30 segundos, descansar o mesmo período e repetir a tarefa.

Os voluntários que dormiram depois da tarefa mostraram 20% de melhor relação aos que não dormiram. Segundo Stickgold, nesse aspecto a parte mais importante de um sono noturno típico de 8 horas é o último quarto. O conselho desse especialista para os estudantes: se quiserem aprender de forma útil para o futuro, vale mais dormir depois de estudar. Se quiserem apenas ser aprovados, pode valer ficar acordados estudando a noite inteira.

E os sonhos? Para Stickgold, tudo indica que fazem parte de um sistema de vários níveis de aprendizado dependente do sono e reprocessamento das lembranças. Nesse sistema os sonhos seriam a manifestação consciente desses processos. Ele se baseia em outro experimento com o jogo Tetris feito com pessoas normais e outras com amnésia. As imagens relacionadas ao jogo que os sujeitos, incluindo os amnésicos, informaram ter enquanto dormiam, indicam que existem diferentes tipos de memória que podem se misturar. O amnésicos não podiam lembrar que tinham jogado no dia anterior, mas sim das imagens relacionadas ao jogo que lhes haviam aparecido. Nas imagens dos jogadores veteranos apareciam experiências anteriores misturadas com as recentes.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

 

 

Uma máquina ativa, com propósito, que sai à noite para brincar

Benedict Carey  -  New York Times - 23/10/07

 

A tarefa parece tão simples quanto um exercício da "Vila Sésamo". Estudar pares de ovos de Páscoa em uma tela de computador e memorizar como foram arranjados pelo computador: o ovo água à frente do arco-íris, o paisley (estampado escocês) à frente do coral -e há apenas seis ovos aqui.

A maioria das pessoas pode estudar estes pares por cerca de 20 minutos e tirar nota máxima, mesmo um dia depois. Mas são muito menos precisas na escolha entre dois ovos que não foram diretamente comparados: água à frente de arco-íris, mas isto significa que está à frente do paisley? É nebuloso.

Isto é, é nebuloso até que você durma.

Em um estudo publicado em maio, pesquisadores das universidades de Harvard e McGill informaram que os participantes que dormiram após jogar este jogo marcaram significativamente mais pontos em um novo teste do que aqueles que não dormiram. Enquanto dormiam, eles aparentemente descobriram o que aparentemente não conseguiam enquanto estavam acordados: a estrutura da hierarquia simples que ligava os pares, paisley à frente de água, à frente de arco-íris e assim por diante.

"Nós achamos que o que acontece durante o sono é que você amplia a abertura da memória e é capaz de ver o quadro maior", disse o principal autor do estudo, Matthew Walker, um neurocientista que atualmente está na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ele acrescentou que muitos destes entendimentos ocorrem "apenas quando você entra neste mundo das maravilhas do sono".

Os cientistas tentam determinar por que as pessoas precisam de sono há mais de 100 anos. Eles não aprenderam muito mais do que qualquer novo pai descobre rapidamente: perda de sono deixa você mais propenso a erros, emocionalmente mais frágil, menos capaz de se concentrar e quase certamente mais vulnerável a infecção. Eles também sabem que algumas pessoas precisam apenas de três horas de sono por noite, ou até menos, e que há algumas almas robustas que permaneceram acordadas por mais de uma semana sem problemas de saúde significativos.

Agora, um pequeno grupo de neurocientistas está argumentando que pelo menos uma função vital do sono está ligada ao aprendizado e memória. Uma enxurrada de novas descobertas, em animais e seres humanos, sugere que o sono tem um papel crítico na rotulação e armazenamento de memórias importantes, tanto físicas quanto intelectuais, assim como talvez vendo associações sutis que eram invisíveis no estado desperto- uma nova forma de resolver um problema matemático ou de ovos de Páscoa, mesmo um padrão invisível que causava desgaste em um casamento.

A teoria é controversa e alguns cientistas insistem que ainda está longe de estar claro se o cérebro no estado de sono pode fazer algo com as memórias que o cérebro desperto também não possa, em momentos de contemplação silenciosa.

Mas a nova pesquisa ressalta uma vasta transformação na forma como os cientistas passaram a entender o sono do cérebro. Antes visto como uma tela em branco, uma metáfora para a morte, ele despontou como uma máquina ativa, com propósito, uma inteligência secreta que sai à noite para brincar -e trabalhar- durante períodos de sonho e durante o limbo conhecido como sono profundo.

"Para fazer ciência é preciso ter uma idéia e por anos ninguém teve uma; as pessoas viam o sono como nada exceto uma aniquilação da consciência", disse J. Allan Hobson, um professor de psiquiatria de Harvard. "Agora o nosso conhecimento é diferente e temos algumas idéias muito boas sobre o que está acontecendo."

A evidência estava lá o tempo todo. Bebês fazem movimentos de mamar enquanto dormem e suas pálpebras fechadas estremecem, como se os olhos sob elas tivessem vida própria. Mas só foi no início dos anos 50, em um laboratório da Universidade de Chicago, que os cientistas registraram e identificaram o que estava acontecendo.

Eugene Aserinsky, na época estudante de doutorado em fisiologia, estava monitorando o sono e despertar de seu filho de 8 anos, usando eletrodos ligados à cabeça do menino, conectados a uma máquina leitora de ondas cerebrais. Ele também fixou dois eletrodos nas pálpebras do menino, para avisar quando o menino acordou. Certa noite ele notou padrões de onda que mostravam que o garoto tinha despertado. Mas ele continuava dormindo.

Aserinsky confirmou a atividade em outras pessoas e, em 1953, ele e seu orientador, Nathaniel Kleitman, publicaram o resultado em um artigo agora famoso na revista "Science". Eles posteriormente chamaram o estado estranho, inconsciente, de sono de movimento rápido dos olhos ou REM (segundo a sigla em inglês).

"Aquele foi realmente o início da pesquisa moderna do sono, apesar de ninguém saber na época", disse William Dement, na época um estudante de medicina no laboratório de Kleitman e atualmente um professor de psiquiatria e medicina do sono da Universidade de Stanford. "Foram necessários anos para as pessoas perceberem o que tínhamos."

Dement, estimulado pelas teorias de Freud sobre os sonhos, rapidamente se lançou no estudo do REM. Ele descobriu que era universal e ocorria periodicamente durante a noite, se alternando com outros estados. Ele lhes deu nomes: estágios 3 e 4, ou sono profundo, quando as ondas elétricas são traçadas tão baixas quanto ondulações do meio do oceano; estágio 2, um estágio intermediário entre o REM e o sono profundo; e o estágio 1, sono leve.

Ele também confirmou a ligação entre REM e o sonhar, e por algum tempo as esperanças da pesquisa do sono -e o dinheiro para ela- aumentaram.

Mas Dement, Hobson e outros encontraram poucas evidências em seus estudos que confirmassem que os sonhos eram os desejos proibidos, disfarçados, descritos por Freud. Eles encontraram um emaranhado de aparentes ansiedades, fantasias e repetições vívidas, frequentemente absurdas, de eventos que exibiam poucos padrões verificáveis ou funções mensuráveis.

Eles atingiram uma parede e a pesquisa do sono, como seu assunto noturno, passaram do entusiasmo do REM de volta ao vazio. "Ocorreu aquela grande empolgação, seguida basicamente por 40 anos de nada; foi simplesmente horrível", disse Robert Stickgold, um neurocientista cognitivo de Harvard. "Apenas um período de trevas."

O sol nasceu em 1994, em Rehovot, Israel. Lá, uma equipe de pesquisa liderada por Avi Karni descobriu que privar as pessoas do sono REM prejudicava a memória dos padrões que tinham aprendido no dia anterior, enquanto privá-las do sono profundo não.

Este resultado gerou mais perguntas que respostas -os participantes estavam simplesmente sonolentos ou estressados? Por que justo o REM? Qual o propósito dos outros estados do sono?- mas foi um convite aos pesquisadores interessados no assunto.

"Eu telefonei imediatamente para Karni e ele me enviou todos seus protocolos, tudo", disse Stickgold.

Outros também o procuraram. O campo estava despertando e agora voltava seu foco para uma área há muito negligenciada: aprendizado e memória.

Desde então os resultados de estudos passaram a surgir quase rápido demais para serem digeridos, sugerindo que no estado de sono o cérebro trabalha com a informação aprendida como um separador de moedas. Ele primeiro destila as lembranças do dia antes de separá-las -vocabulário, fatos históricos e moedas de 10 centavos aqui; escalas de violoncelo, arremessos de basquete e moedas de 25 centavos ali. Ele então as agrupa em montes legíveis, em momentos diferentes da noite. Na prática, os estágios do sono parecem ser especializados em lidar com tipos específicos de informação, sugere o estudo.

Em uma recente tarde de segunda-feira no laboratório de Stickgold, no Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, um estudante de pós-doutorado, Matthew Tucker, estava realizando um estudo sobre o efeito dos cochilos sobre as palavras memorizadas. Em uma sala vizinha, um estudante da Universidade de Boston estudava uma lista com 48 pares de palavras; em outra, um estudante da Universidade de Massachusetts tinha acabado de estudar e estava se reclinando para um cochilo, seu rosto coberto de eletrodos, como sanguessugas com antenas.

"Estudantes universitários estão sempre prontos para um cochilo; não temos problemas com isso", disse Tucker, enquanto andava de um lado para outro, checando seu relógio, cronometrando o cochilo de um estudante e o período de estudo do outro.

Ele se sentou por um momento. "Nós estamos descobrindo que se uma pessoa tira um cochilo que contém sono de onda lenta -sono profundo- o desempenho das tarefas de memória declarativa, que exigem memorização de informação baseada em fato como palavras casadas, é ampliado em comparação a uma pessoa que não tira um cochilo", disse Tucker.

Estudos anteriores do sono noturno apontaram a mesma coisa. A memória de fatos aprendidos, sejam nomes, lugares, números ou verbos em persa, parece se beneficiar em parte com o sono profundo. Pessoas que dormem bem geralmente entram em sono profundo cerca de 20 minutos após suas cabeças encostarem no travesseiro. Elas podem passar uma hora ou mais nestes estados profundos no início da noite, e geralmente menos tempo posteriormente. Resumindo, quando se está acumulando informação, pode ser melhor dormir cedo e acordar cedo, do que ficar estudando até as 2 horas da manhã, sugere a pesquisa.

O sono REM, grande parte do qual ocorre mais tarde na noite, parece importante para reconhecimento de padrões -para aprendizado de gramática, por exemplo, observar pássaros ou jogar xadrez.

Em um estudo de 2003, Sara Mednick, na época em Harvard e atualmente na Universidade da Califórnia, em San Diego, liderou uma equipe que fez com que 73 pessoas entrassem no laboratório às 9 horas da manhã e aprendesse a discriminar uma série de padrões texturizados. Alguns dos participantes então tiraram um cochilo de cerca de uma hora às 14 horas e outros não.

Quando testados novamente às 19 horas, o grupo que descansou se saiu ligeiramente melhor. Quando testados novamente na manhã seguinte, após todos terem dormido à noite, o grupo que tirou um cochilo se saiu muito melhor. Os cochilos incluíram tanto sono REM quanto profundo.

"Nós achamos que o cochilo que contém ambos os estados faz o mesmo pela consolidação da memória que o sono noturno", quando se trata do aprendizado do reconhecimento de padrão, disse Mednick.

Não que o estágio 2 seja um corredor vazio entre destinos. Em uma série de experiências que iniciou no começo dos anos 90, Carlyle Smith, da Universidade de Trent, no Canadá, encontrou uma forte associação entre a quantidade de sono do estágio 2 que uma pessoa tem e a melhoria no aprendizado de tarefas motoras. Dominar uma guitarra, um taco de hóquei ou um teclado são todas tarefas motoras.

Os músicos, entre outros, sentem isto há eras. Uma peça que frustra os dedos durante a prática noturna freqüentemente flui pela manhã. Mas apenas nos últimos anos a ciência os alcançou e deu forma prática ao que sabiam instintivamente.

Por exemplo, Smith disse que as pessoas costumam ter grande parte de seu sono do estágio 2 na segunda metade de noite. "A implicação disto é que se você está se preparando para uma apresentação, um recital de música, digamos, ou uma exibição de skate, é melhor ficar acordado até tarde do que acordar realmente cedo", ele disse em uma entrevista. "Estes treinadores que fazem os atletas ou artistas acordarem às 5 horas da manhã, eu acho que é loucura."

Apesar de toda esta informação, os pesquisadores da memória ainda precisam entender o quadro completo de como todas as peças se encaixam. Cada um tem uma teoria, mas elas divergem: Smith se concentra no estágio 2, outros no sono profundo, outros no REM ou uma combinação de REM e sono profundo. E ninguém sabe como as diferenças individuais entre aqueles que dormem tarde e aqueles que dormem cedo, por exemplo, afetam o aprendizado noturno.

Além disso, disse Jerome Siegel, um professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, milhões de pessoas tomam medicamentos que suprimem o REM sem apresentarem problemas sérios de memória. "Eu não descartaria a possibilidade do sono contribuir para a consolidação do aprendizado e da memória, mas a alegação é de que é essencial, que faz algo que o cérebro desperto não faz, e a pesquisa não mostra isto", disse Siegel.

Mesmos os universitários que passam a noite acordados fornecem evidência de que alguma consolidação ocorre durante o estado desperto, ele disse. "Os universitários sabem que a melhor forma de aprender as coisas não é ficando acordado a noite toda, porque isto afetará seu julgamento", disse Siegel, "mas não importa quão bom seja seu julgamento se a informação não estiver lá. E os estudantes sabem por experiência que muita informação está."

Um motivo para alguns neurocientistas estarem confiantes de que o estado de sono do cérebro está trabalhando ativamente com as informações do dia é porque viram com seus próprios olhos -ou ao menos ouviram.

Em seu laboratório no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Matthew Wilson estuda ratos e camundongos usando o que parecem chapéus de Carmen Miranda. Eles são implantes ultraleves por meio dos quais os pesquisadores inserem cabos como fios de cabelo para registrar a atividade de células individuais nas profundezas do cérebro, no hipocampo esquerdo e direito, onde as memórias do dia são gravadas.

Pesquisa anterior mostrou que o hipocampo é espacialmente sensível: ele parece literalmente casar a atividade de neurônios individuais com localizações fora do corpo. Acredita-se que estes sistemas funcionem de forma semelhante em seres humanos e roedores.

Os computadores registravam a ativação das células em tempo real e podiam transmiti-las por alto-falantes. "Eu às vezes escutava esta música de fundo do cérebro enquanto os animais estavam dormindo, e comecei a ouvir esta seção que soava muito com o padrão de quando os animais estavam no labirinto", disse Wilson em uma entrevista. "Eu reconheci o padrão de ativação."

O caminho do labirinto é uma memória importante para estes animais; trata de tudo o que sabem. Em um estudo publicado em dezembro passado, Wilson e Daoyun Ji relataram que enquanto os animais dormiam, eles registraram a conversa dos neurônios no centro visual do neocórtex, seguida por uma aparente resposta do hipocampo -e não uma resposta qualquer, mas uma repetição da atividade no hipocampo que ocorreu durante a tarefa no labirinto.

Wilson acha que este é um tipo de conversa off-line entre o neocórtex, que está envolvido no aprendizado consciente no estado desperto, e o hipocampo. "O que percebemos é que a luz acende no neocórtex uma fração de segundo antes de acender no hipocampo, como se o córtex estivesse pedindo informação", ele disse.

Segundo ele, este processo provavelmente é semelhante ao que acontece quando as pessoas fazem uma pausa para refletir, sem distrações, selecionando entre as experiências do dia, também rotulando detalhes importantes, repassando eventos. "A pergunta não é se este é um processo essencial; ele é", disse Wilson. "A pergunta é se há algo acontecendo durante este processo que é único do estado de sono."

Subimal Datta, um neurocientista na outra margem do rio, na Escola de Medicina da Universidade de Boston, pensa o mesmo. Em seus estudos de animais, ele documentou que durante o sono o cérebro é tomado por um banho químico diferente de qualquer outro que ocorre durante o estado desperto. Os níveis de transmissores inibidores aumenta acentuadamente e os níveis de muitos ativadores caem, ou são desativados totalmente.

Segundo Datta, mesmo antes do REM é detectável um pequeno conjunto de células no tronco encefálico estimulando um aumento do glutamato -um neurotransmissor ativador- que leva a uma síntese de proteína e outras mudanças que apóiam o armazenamento de memória de longo prazo.

"Durante o estado desperto nós temos milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo, a biblioteca está sendo cheia e não podemos processar tudo", disse Datta. Enquanto está acordado, o cérebro também está reunindo muitas informações valiosas subconscientemente, ele disse, sem que a pessoa esteja ciente disto.

"É durante o sono que temos esta condição especial de desembaraçar esta sobrecarga, e estes processos REM então ajudam a guardar o que é importante", disse Datta.

No jargão do campo, a "razão entre sinal e ruído" se torna mais forte. O traço neural das trivialidades é enfraquecido, detalhes cruciais são repetidos e reforçados.

Os sonhos ainda desafiam a medição científica, mas eles também têm um lugar na teoria em evolução do aprendizado dependente do sono.

É provavelmente durante o REM, argumentam alguns cientistas, que o cérebro realiza a mistura, associação e manipulação dos traços de memória que preservou, à procura de conexões escondidas que ajudam a compreender o mundo. A experiência de vida é cortada e reordenada, peneirada e misturada de novo. Este processo pode ser o responsável pelas cenas absurdas, desconexas, que ocorrem durante os sonhos: o caleidoscópio da experiência destilada está sendo virado.

Também pode ser responsável pelo dom dourado freqüentemente atribuído a sono noturno: inspiração. Segundo relatos de algumas pessoas, o sono noturno mudou seu mundo. Foi supostamente durante o sono que a tabela periódica de elementos do cientista russo Dmitri Mendeleev se encaixou no lugar. Friedrich August Kekule, um químico do século 19, disse que solucionou a estrutura química do anel de benzeno -uma descoberta importante- quando sonhou com uma cobra mordendo o próprio rabo. Atletas, como o golfista Jack Nicklaus, também já falaram sobre inspiração vinda durante o sono.

Pequenas correções na técnica são reveladas; armadilhas são evitadas; montanhas se movem.

"Faz sentido tais entendimentos ocorrerem durante o REM", disse Walker. "Quero dizer, que melhor momento para repassar todos estes diferentes cenários, soluções e idéias do que nos sonhos, onde não há conseqüências?"

O problema, ele e outros disseram, é como estudá-lo. Isto, concorda a maioria dos neurocientistas, exigirá um bocado de pensamento criativo -tanto diurno quanto noturno.

Tradução: George El Khouri Andolfato

 

 

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